Linha Literal

Caminhando pela Bruzundanga

por Michel Goulart da Silva

Na Primeira República, fazendo uma sátira sobre o Brasil, Lima Barreto criou um país fictício chamado Bruzudanga. Ele definia o termo bruzundanga como um "brasileirismo" que significa "palavreado confuso", "algaravia", "mixórdia", "trapalhada". Conclui então que "a República das Bruzundangas seria, por conseguinte, o país das trapalhadas". O romancista falava sobre o Brasil do começo do século passado, mas não espantaria ninguém as semelhanças com os dias atuais.

O livro estrutura-se como um diário de viagem de um brasileiro que morou tempos na Bruzundanga, cuja economia é dominada pelos cafeeiros da província de Kaphet. No romance Os Bruzundangas, Lima Barreto mostra um país que possui uma elite inculta que domina o povo, exalando racismo e defendendo a pobreza. Nada disso parece diferir de certas ações e comentários recentes sobre as populações indígenas ou sobre a fome.

O livro mostra a obsessão por títulos como os de nobreza e os de doutor, mesmo que seus possuidores não sejam nem nobres nem letrados. Certamente isso lembra a quantidade de títulos falsos que foram divulgados em relação membros do atual governo, que, embora com práticas que destroem a educação, parecem ter fetiche diplomas fictícios, alguns dos quais supostamente obtidos em instituições estrangeiras.

Na política, os presidentes, chamados Mandachuvas, assim como os ministros, os heróis e os deputados, são estúpidos e vazios. São numerosas as caricaturas de personagens da vida política da Primeira República, mas que certamente poderiam ser trazidos para a contemporaneidade do Brasil. Quanto à legislação, se a lei não for conveniente à situação, ela não é válida. Os recentes ataques a leis vigentes que não atendem aos interesses particulares é mostra disso.

Na obra de Lima Barreto está explícita uma crítica às instituições do seu tempo e à marginalização a que a maioria da população estava submetida. Em suas denúncias da imprensa, da burocracia, das formas políticas da época republicana, inclusive do militarismo, percebe-se uma crítica universal que ultrapassa seu contexto particular.

Lima Barreto realizou uma literatura original e criativa. O conjunto de sua obra, e não apenas em Os Bruzundangas, faz uma profunda crítica social que nos ajuda a pensar não apenas a história do Brasil ao longo do século passado, como nosso atual momento e o quanto algumas de suas sátiras, feitas há mais de cem anos, se mantém atuais.



linhapopular sim




Logo branca.png

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados | Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina