Linha Literal

O (novo) horror negro

Por Michel Goulart da Silva

Em outros momentos comentei sobre a renovação do cinema de horror. Uma das questões que mais me tem chamado a atenção é de algo não tão novo, o "cinema negro", neste caso voltado basicamente ao gênero horror. Nos últimos anos se viu um grande crescimento de obras que não apenas colocam em cena protagonistas negros, mas também abrem maior espaço para uma equipe técnica constituída de forma plural. O ponto alto disso certamente foi o Oscar recebido filme "Pantera Negra", ainda que haja outros filmes e séries que seguem o mesmo princípio. 

No caso específico dos filmes de horror, o nome que salta aos olhos é de Jordan Peele. Figura bastante ativa, atuando como produtor, diretor e ator, Peele foi responsável pela direção de dois dos filmes mais marcantes do horror nos últimos anos, "Corra!" e "Nós". Esses filmes não são uma mera atribuição de função a algum negro como protagonista ou diretor. Essas produções associam de forma criativa e crítica uma narrativa de horror a questões sociais prementes.

Peele escancara o racismo de forma crítica, explícita e contundente. Em "Corra!" há uma crítica a como o racismo é combatido de forma superficial e até mesmo artificial. O filme ironiza o fato de o ser negro ter se tornado uma espécie de modismo, como um véu a ocultar o racismo, que deixa de ser aberto e violento para se tornar velado e hipócrita.

Em "Nós" há uma mensagem bastante dura: nossos privilégios escondem que há, por assim dizer, um negativo que não teve nada do que temos. É como se tirássemos o lugar ou mesmo a vida de outras pessoas para que tenhamos o que quisermos. As pessoas que pouco ou nada possuem são principalmente os negros, sem direito ao mínimo de condições de vida. O fato de os personagens do filme permanecerem presos num subsolo escuro é uma metáfora contundente.

Para o próximo ano aguarda-se a adaptação de "Candyman", produzido por Peela. A denúncia sobre as condições de vida de uma população negra marginalizada na periferia de uma grande cidade ganhará uma nova versão, quase trinta anos depois da primeira adaptação, em meio ao crescimento do discurso de supremacia branca e intolerância das mais diversas por todo o mundo.

Como ocorre com a protagonista de "Nós", esses filmes nos permitem olhar para o que talvez estejamos ajudando a tirar dos outros ao não encarar o problema com a seriedade que precisa ser encarado, achando que a inclusão pela representatividade pode mudar alguma coisa ou que a mera solidariedade ou comemoração ajuda em algo.



linhapopular sim




Logo branca.png

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados | Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina