Linha Literal

Quem afinal é o criminoso?

por Michel Goulart da Silva

Os hackers parecem estar na moda ou, pelo menos, nas desculpas mais recentes ditas por parte das autoridades brasileiras. Os acontecimentos dos meses recentes fazem lembrar de alguns precedentes na literatura, um dos quais bastante destacado. Na trilogia "Millennium", do escritor sueco Stieg Larsson, também adaptada para o cinema, o leitor pode acompanhar a trajetória da jovem Lisbeth Salander. Tratada como criminosa desde criança devido à tentativa de assassinato do próprio pai, Lisbeth se torna uma hacker que ajuda a solucionar um misterioso crime, décadas depois.

Embora a solução do crime apresentado no primeiro livro seja bastante envolvente, o que mais chama a atenção certamente é a trajetória de Lisbeth, desenvolvida ao longo das três obras (ou cinco, se considerar as duas continuações publicadas após a morte de Larsson). Logo no começo vemos uma mulher adulta que, embora inteligente e completamente dona de si, é tutelada pelo Estado. Lisbeth se vê obrigada a se submeter a um conjunto de humilhações por conta dessa condição, o que inclui o estupro por parte de um de seus tutores legais.

Com o passar da história narrada na trilogia, o leitor descobre que há uma conspiração encravada no próprio Estado sueco que a mantém naquela condição de humilhação. Os membros dessa conspiração são veteranos de um governo de influência nazista que, mesmo tendo perdido postos na administração pública, ainda conseguiam manter benesses do poder.

Uma das coisas que esse grupo conseguia manter era Lisbeth tutelada, como forma de proteger seu pai, não apenas um amigo dos partidários do nazismo, mas também quem primeiro começou os abusos contra a própria filha. Um médico, ano após anos, legitimava a avaliação de que Lisbeth seria uma garota desequilibrada e, por isso, deveria permanecer tutelada.

O ponto alto de toda essa tragédia é o julgamento de Lisbeth. Com todos os anos de acobertamento e proteção ao nazista abusador, como seria possível provar a inocência de Lisbeth? Obtendo informações ilegais do computador do médico e entregando para um jornalista que garantiria o sigilo da fonte. Com isso, a liberdade de Lisbeth foi talvez até o menos importante, pois com as provas coletadas se conseguiu provar não apenas a existência da conspiração dos velhos nazistas como um esquema de pedofilia.

Na ficção não se teve dúvidas sobre quem eram de fatos os criminosos. No Brasil recente ainda se tenta acobertar crimes mesmo quando a imprensa trata de escancará-los completamente.




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