Linha Literal

Sobre a violência no cinema

Por Michel Goulart da Silva

Nesta semana um dos assuntos mais importantes que se vêm levantando se refere à violência contra as mulheres, uma das mais graves expressões do machismo. Nas artes isso foi representado ao longo de séculos ou mesmo milênios, mas algo no mínimo incômodo em grande parte das obras é o fato de expressar a violência, em suas várias formas, de uma maneira um tanto quanto naturalizada. O caso mais expressivo com certeza está no cinema de horror.

Em certo momento as personagens femininas do cinema de horror ou foram jovens frágeis em busca de um homem para protegê-las ou perigosas vilãs que queriam destruir a família burguesa. Nas produções das últimas décadas o corpo feminino parece ter se tornado um objeto prioritário de violência e exposição. No final dos anos 1960 proliferaram vampiras lésbicas que frequentemente apareciam nuas. Na década seguinte se tornou comum um cinema em que mulheres eram estupradas, em cenas mostradas com todos os seus detalhes, e depois se vingavam de seus violadores.

A tematização da violência na ficção não é propriamente o que causa incômodo, afinal é possível trabalhar as narrativas a partir de diversas perspectivas. As representações podem variar de acordo com tensões culturais, política e econômicas. Mas é comum em muitos filmes, como nos slashers, que o corpo feminino seja representando somente como carne a ser morta. Sempre se remete a um ataque isolado, feito por um indivíduo normalmente com algum transtorno mental, sem problematizar a violência presente na sociedade.

Outro problema passa pela estetização a violência. Uma coisa é tematizar a violência mostrando muito brevemente o ocorrido ou mesmo apenas sugerindo o que ocorreu, sem expor o corpo. Contudo, no horror parece haver um gosto por exibir cadáveres e, no caso das mulheres, normalmente cenas de corpos nus e ensanguentados. Não custa lembrar o quanto predomina o olhar masculino no cinema e, no caso do corpo feminino, um certo prazer estético em vê-lo passar por intensos sofrimentos.

Nos últimos anos têm se percebido algumas poucas perspectivas diferenciadas, em especial quando mulheres assumem as câmeras. Um filme como "Garota infernal" certamente decepciona quem o assiste apenas para ver o corpo de Megan Fox. O thriller "Vingança" mostra como uma cena de estupro pode ser dirigida sem humilhar a personagem e muito menos sem fazer uma exibição gratuita do corpo feminino.

O tratamento dado ao tema no cinema certamente é expressão de como a sociedade enxerga o problema, culpando as vítimas e tratando a violência como um caso individual e isolado.





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