Linha Literal

Sobre censura e preconceito

por Michel Goulart da Silva

Na Bienal do Livro, ocorrida semana passada, no Rio de Janeiro, houve um dos mais lamentáveis episódios recentes de censura. Na cruzada que setores políticos e sociais vêm fazendo contra a chamada "ideologia de gênero", tentou-se proibir a difusão de livros que toquem na LGBT+, em particular um quadrinho da Marvel. Essa notícia teve uma repercussão negativa, nacional e internacionalmente, provocando reações de defesa da liberdade de expressão. 

O que talvez mais assuste nessa cruzada de setores conservadores, em especial dos que querem jogar a homossexualidade de volta para dentro do armário, é o conjunto de mentiras que se vão inventando. A narrativa construída pelos censores da Bienal associa o material perseguido à pornografia, exigindo que tivesse uma forma de difusão especial (basicamente, deveria ser colocado em uma embalagem escura e jogado para longe do acesso de menores de idade).

Outra questão que também assusta é a de que alguém se arrogue o direito de definir o que pode ou não ser publicado e qual será a forma de difusão. As escolhas subjetivas de quem censura serão aquelas a serem adotadas, e essas sempre serão conservadoras. Temas considerados delicados, como a sexualidade humana, sempre acabarão sendo objeto de censura. Não seria exagero pensar que corre-se o risco de que o episódio de fiscalizar se os livros "polêmicos" estariam devidamente escondidos se transformasse em uma perseguição aberta àquilo que for julgado inadequado por sabe-se lá quem.

Pior, as formas de amor que não sejam aquelas que os conservadores são capazes de entender sempre serão estigmatizas e perseguidas. Se os livros supostamente polêmicos, que poderiam construir nas pessoas uma percepção livre e sem preconceitos da sexualidade e de outros temas tidos como delicados, são inadequados e devem ser controlados, no final das contas poderá haver uma reprodução do preconceito. O preconceito é produto da ignorância e do medo daquilo que se considera estranho, diferente e perigoso.

O esclarecimento sempre será melhor do que esconder as coisas. O Brasil possui leis que protegem a infância e profissionais que garantem às crianças formas adequadas de conhecer o mundo. O problema é que até mesmo essas leis e esses profissionais vêm sendo atacadas pelos censores ou por quem os dá apoio. Talvez se esteja caminhado para um futuro de mais ignorância e preconceito, em que se ensinará às novas gerações que devem temer aquilo que consideram estranho e odiar aquilo que não conhecem.




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