Linha Literal

Sobre ignorância e censura

por Michel Goulart da Silva

Na última semana, alguns dos temas mais comentados estiveram relacionados ao cinema brasileiro, em especial possíveis mudanças administrativas na Agência Nacional de Cinema (ANCINE). Essas possíveis mudanças foram justificadas em associação a um discurso moralista sobre um filme em particular, "Bruna Surfistinha". Contudo, o que mais chama a atenção não é tanto esse moralismo, cada vez mais comum, mas a falta de conhecimento sobre a função de certos órgãos do governo e sobre as políticas de apoio à cultura.

Não se trata de função principal da ANCINE o investimento direto em produção de filmes, mas a fiscalização das atividades de produtoras e distribuidores. Embora a agência possa ser também uma fomentadora, por meio de chamadas públicas, esse papel cabe principalmente aos órgãos antes ligados ao Ministério da Cultura, particularmente à Secretaria de Audiovisual. Se há uma crítica a ser feita à ANCINE tem relação principalmente com o fato de, por um lado, ter permitido que as grandes produções internacionais continuem a dominar o mercado de cinema no Brasil e, por outro, não ter coibido o crescimento da Globo Filmes, que conquistou quase um monopólio da distribuição na pequena fatia comercial deixada ao cinema nacional.

A principal forma de fomento ao cinema no Brasil se dá pela Lei Rouanet, que, diferente do que normalmente se propaga em redes sociais, não se dá por meio de investimento governamental direto, mas de renúncia fiscal de empresas. O governo deixa de arrecadar impostos, em troca de empresários apoiarem projetos culturais, que vão desde filmes independentes a eventos do porte da Oktoberfest. Não se trata de uma efetiva política pública, em que o Estado se dispõem a fomentar o cinema ou outras ações culturais por meio de investimentos diretos, mas de colocar os artistas nas mãos de empresários que, por si só, fazem sua própria censura do que querem ou não ver exibido no cinema, apresentado em peças ou exposto em galerias.

Nesse sentido, fazer mudanças administrativas na ANCINE não vai mudar muita coisa, a não ser a manutenção do domínio da distribuição por grandes empresas estrangeiras. Fazer críticas à Lei Rouanet também terá pouco impacto, afinal muitos dos empresários se aproveitam desse mecanismo para não pagar impostos. O fato é que o cinema nacional tem um histórico de críticas à situação política, e todas as barbaridades políticas que se tem visto nos últimos anos não tem escapado do olhar dos cineastas.




linhapopular sim




Logo branca.png

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados | Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina