Linha Literal

Um herói à brasileira

por Michel Goulart da Silva

Neste mês de setembro estreou na televisão a série "O doutrinador". Inicialmente adaptada para o cinema, o personagem foi apresentado pela primeira vez em histórias em quadrinhos, criados por Luciano Cunha. Na série são narradas as aventuras de um policial federal que assume o manto de um justiceiro mascarado, em busca de vingança contra políticos e empresários corruptos.

Miguel, o protagonista, é um policial federal que investiga um esquema de corrupção de desvio de verbas da saúde. No primeiro episódio prende-se o governador, que é parte de um esquema do qual fazem parte senadores e deputados, além de envolver até mesmo uma juíza. Embora bastante caricatural, o grupo de corruptos fala abertamente em "defesa da família" ou em religião, ainda que fique clara a forma cínica como lidam com essa retórica, utilizada por eles para enganar pessoas.

Miguel vê sua filha morrer em um hospital sucateado. Com isso explode uma raiva que, quase por acaso, faz ele se tornar um misterioso justiceiro mascarado que invade o palácio de governo e mata o governador. É simbólico que Miguel tenha literalmente saído da multidão para fazer algo que a massa de populares queria fazer. Depois disso ele vai atrás de todos os envolvidos no esquema de corrupção de desvio de verbas da saúde.

Durante o dia, Miguel tenta seguir a investigação como policial, mas logo percebe que forças poderosas querem impedir o avanço do trabalho. Inclusive a investigação de corrupção é interrompida, desviando sua atenção para a caçada ao misterioso justiceiro mascarado.

A série expressa uma completa perda de esperança nas instituições. Não parece ser acaso o fato de mostrar-se muito da investigação, como as provas vão surgindo, mas como ao mesmo tempo ela vai encontrando obstáculos.

Em sua jornada, Miguel conta com a ajuda de Nina, uma hacker em permanente conflito entre condenar e apoiar as ações do Doutrinador. Essas dúvidas possivelmente são o centro da reflexão da série: ainda é possível confiar nas instituições? Pode-se mudá-las ou cada um de nós deve fazer sua própria cruzada? No caso do Doutrinador, mesmo que não seja possível confiar nas instituições, são justificados os assassinatos dos corruptos?

Não há respostas conclusivas na série. O espectador deve elaborar as próprias respostas a partir de suas experiências. Sãos mostrados caminhos e possibilidades. O Doutrinador, com seus dilemas e contradições, acaba sendo um perfeito herói à brasileira.




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