Linha Literal

Um novo vilão clássico

Por Michel Goulart da Silva

Embora mais conhecido como o principal antagonista do Batman, tendo passado por uma variedade de adaptações no cinema e na televisão, a mais recente versão do Coringa talvez tenha sido a primeira vez que se tentou contar como teria surgido o famoso vilão. Arthur Fleck é um palhaço sem graça. Sonha em ser famoso pela sua arte, mas não consegue sequer ser respeitado por seus colegas de trabalho. Apresenta distúrbios psicológicos, em especial um que o faz gargalhar de forma descontrolada.

Algo que chama a atenção no filme é o quanto a sociedade parece ser, por assim dizer, mal-humorada. Pelas ruas, além da pobreza extrema da população, há uma violência em descontrole, e, curiosamente, tem como vítima o próprio palhaço de Fleck. É quase como se fosse proibido rir num cenário de devastação social, e profissionais que queiram dar um pouco de alento e fantasia devessem ser banido.

Há uma profunda crise na sociedade e o filme escancara isso. Ao longo do filme vai mostrando a situação de degradação social e a reação das pessoas, que vão desde saídas individuais e desesperadas até a busca por saídas coletivas, como os protestos contra a figura de Thomas Wayne e dos "ricos" em geral. O Estado é resumido na assistência social de Fleck, cuja utilidade acaba sendo somente a autorização para que consiga seus remédios, e que é uma das primeiras coisas a ser cortadas diante do aprofundamento da crise.

No embate social e político descrito no filme surge a figura misteriosa que representa o desespero sentido por todos. Isso leva a um amplo movimento de rua, com quebradeira e muita pancadaria, em que a polícia e os poderosos perdem o controle da situação.

Fleck não se diz um político, mas suas ações acabam inspirando o sentimento e as mobilizações nas ruas. O fato de ser um palhaço que diz ao vivo na televisão ter sido tratado como lixo ao longo de sua vida dialoga bastante com o sentimento das pessoas nas ruas.

O filme é genial ao mostrar a situação social e como isso impacta a consciência das pessoas, na busca por alternativas. Busca-se a liderança de sujeitos que são muito mais estéticos e superficiais do que políticos, e que exploram sentimentos irracionais e imediatistas dos trabalhadores em desespero.

O filme não é apenas uma possível história de origens de um vilão icônico, nem o desdobramento de um universo dos quadrinhos, mas uma possível representação do atual momento político, criticando tanto os pretensos salvadores da direita como o reformismo que não apresentam alternativas reais de transformação da sociedade.



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