Linha Segurança

9 mortes e 1 crucificação

Por Tiago Teixeira Ghilardi

No último final de semana, 9 pessoas morreram pisoteadas e 12 ficaram feridas após um corre-corre em um "Pancadão" na cidade de São Paulo, mais especificamente em uma comunidade chamada Paraisópolis. Desde então, tenho lido e ouvido que os responsáveis pelas mortes foram os policiais militares que desencadearam uma "operação" na comunidade. 

Na verdade, essa versão está totalmente incorreta. Policiais militares em motocicletas estavam próximos ao local do "Pancadão" quando tentaram abordar uma motocicleta com 2 ocupantes que fugiram. Ao realizar o acompanhamento, os marginais atiraram contra os policiais militares que, mesmo assim, continuaram a persegui-los. Para onde eles foram? Para o meio da multidão onde acontecia o "Pancadão" disparando contra os policiais. Ora, ao ouvirem os tiros as pessoas saíram correndo e na confusão a tragédia ocorreu. 

Imagens de policiais militares agredindo pessoas em becos e vielas foram veiculadas e atreladas às mortes. A apuração de qualquer excesso deve ser realizada. Não se pode admitir a violência pela violência. A essência da polícia não é esta. Sir Robert Peel, considerado o pai da polícia moderna, em 1829 cunhou a expressão de que a polícia é o povo e o povo é a polícia. Assim, as ações devem ser pautadas pela legalidade e respeito aos direitos do cidadão, porém, usar estas imagens para responsabilizar a polícia militar pelas mortes é baixo e desonesto. Que as condutas incompatíveis sejam apuradas e punidas, mas que não se cometa injustiças e que a Polícia Militar, nesse caso a de São Paulo, não seja crucificada como uma instituição de segundo escalão, pois não é.

Pancadões são festas realizadas nas ruas e que desafiam a ordem e carregam consigo uma gama de crimes conexos: tráfico de drogas, exploração sexual, uso de drogas e bebidas alcoólicas por menores. No caso do dia da tragédia, 5 mil pessoas estavam na festa, isso mesmo, 5 mil pessoas. A região é completamente inapropriada pra isso, com vielas, becos e ruas estreitas. O evento ocorreu sem nenhum tipo de autorização do poder público, um verdadeiro barril de pólvora. A verdade é que o foco não é ação policial. O que ocorreu foi desencadeado por uma ação criminosa e não policial. Portanto, a discussão deveria ser do que fazer para dar segurança aos Pancadões. Se isso não for feito, mais tragédias podem ocorrer motivadas por uma briga, uma discussão ou tiros disparados por outros criminosos.

Fato é que os organizadores do evento em que houve a tragédia nem sequer são citados como responsáveis pelo que aconteceu na imprensa. Como policial, sei dos requisitos mínimos de segurança que devem ser adotados para que eventos possam ocorrer. Todos sabemos! Um jogo em um estádio, um grande evento religioso ou um réveillon, são cercados de inspeções e providências de segurança. Quem vai a um evento desse facilmente identifica quando a estrutura não oferece garantias mínimas de segurança. Os pancadões não respeitam essa lógica e são um perigo para os participantes. 

Dentre alguns absurdos que li sobre o fato, destaco o comentário de um colunista de uma revista de circulação nacional: "(...) a polícia (...) nunca poderia ter entrado na festa usando armas químicas e causando pânico - nem se a população agredisse antes, como os policiais afirmam". Em contraponto, cito a fala do comandante geral da polícia militar de São Paulo, coronel Salles, em seu discurso para os novos soldados formados: "Não espere reconhecimento daqueles que não conhecem o cheiro da pólvora ou o calor dos incêndios."



linhapopular sim




Logo branca.png

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados | Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina