Linha Segurança

Carta ao policial militar

Por Tiago Teixeira Ghilardi

Caro policial militar, há uns anos, você e seu colega estiveram em minha casa. Chegaram em uma viatura, de sirene ligada. Eu dava uma festa para alguns amigos. Era duas horas da madrugada e o som estava ligado. Vocês fizeram a abordagem de uns jovens que estavam na rua, do lado de fora. Apontaram suas armas para eles e pediram que colocassem as mãos na cabeça. Achei desnecessária e agressiva essa medida. Eram jovens honestos e trabalhadores. Depois, de forma ríspida, entraram em minha residência pedindo para desligar o som. Eu havia ingerido bebida alcoólica. Comecei a discutir com vocês e, apesar da discussão, não chegamos às vias de fato. Vários convidados me seguraram. Vocês informaram que mais de 7 ligações diferentes foram feitas à Central de Emergência reclamando do som alto. Não acreditei. Meus vizinhos não fariam isso. Naquele dia a festa acabou. O som foi levado e tive que assinar um Termo Circunstanciado, pois estava perturbando o sossego. Os convidados foram embora e eu amaldiçoei a instituição Polícia Militar. 

No outro dia, de ressaca, chegou uma carta informando que eu havia sido multado! A infração era ultrapassar pelo acostamento, mais de mil e quatrocentos reais e sete pontos na carteira em decorrência disso. Adivinha quem me multou? Um policial militar. Eu estava com pressa e tinha uma reunião no meu trabalho, por isso ultrapassei pelo acostamento. Tudo bem que saí em cima da hora de minha casa, mas daí a levar uma multa? Concordei com muitos de meus amigos que argumentavam pelo fim da Polícia Militar. Cheguei a chamar a instituição de fascista e de braço opressor do estado quando conversava com alguns colegas.

Os anos se passaram e um dia tive uma surpresa desagradável. Meu filho de 23 anos fez um concurso para Polícia Militar e passou. Disse a ele que não concordava com aquilo. De nada adiantou. Ele foi trabalhar nas ruas da cidade, dentro de uma viatura. Discutimos algumas vezes, porém, decidi não mais tratar deste assunto para não ver nossa relação se deteriorar. Mesmo com todo treinamento ele me dizia que certas ocorrências o atingiam emocionalmente. Às duas horas da manhã, horário em que saia de serviço, ele foi chamado para atender uma ocorrência de perturbação do sossego. Mesmo com toda a carga de doze horas de serviço, ele resolveu ir atender ao chamado. Era uma festa. Vários jovens estavam bêbados e alguns drogados. Meu filho desceu da viatura e foi em direção ao responsável pela festa que não gostou da decisão de ter que desligar o som. Eles começaram a discutir. Meu filho foi acertado com uma paulada na cabeça. Seu parceiro não teve tempo de ajudá-lo. Recuou e pediu apoio. Quando a ambulância chegou, meu filho já havia perdido muito sangue. Chegou a ser socorrido, porém, morreu no hospital.

Hoje, caro policial militar, vejo que todas às vezes que reclamei de seu serviço foi por falta de saber assumir as minhas responsabilidades. Entendo o motivo de apontar a arma em uma abordagem, o estresse de um período de serviço e, agora com a farda que meu filho usou em minhas mãos, o peso de proteger uma sociedade muitas vezes ingrata. Choro pelo filho que perdi, porém, orgulhoso do homem que se tornou. Não há nada mais honrado do que viver para proteger.



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