Linha Segurança

Os 'especialistas' em segurança pública

Por Tiago Teixeira Ghilardi

Assisti ao filme Ford VS Ferrari e uma cena me chamou atenção: o momento em que Ford II, dono do império de carros da Ford, entra em um carro de corrida com o piloto Carroll Shelby. O piloto leva o grande empresário para uma volta veloz em um pequeno circuito. Ao final, o empresário Ford II aparece chorando, ainda dentro do veículo, em razão da experiência reveladora que foi andar a uma velocidade inimaginável ao lado de um piloto experiente. Shelby fez isso para provar que executivos, dentro de seus escritórios, não conseguem entender a complexidade na escolha de um piloto qualificado, nem a montagem de um veículo de corrida. 

A cena foi reveladora para mim também. Sempre que assisto aos jornais ou leio algumas notícias na internet me deparo com especialistas em segurança pública comentando um fato da área. A maioria deles são acadêmicos, profissionais ligados ao direito ou às áreas do comportamento humano. Assim como no filme, em que a opinião dos empresários é válida, porém não suficiente sobre carros e corridas, como prova a cena descrita no parágrafo anterior, a opinião de acadêmicos e profissionais de outras áreas são importantes, mas não podem ser decisivas para as questões de segurança pública.

São vários os atores que protagonizam as ações na área de segurança pública, cada um dentro da especificidade constitucional. O maior contingente, sem nenhuma dúvida, é o da polícia militar. A atividade exercida é muito complexa em sua natureza. A necessidade de conhecimento teórico e prático por parte dos policiais militares é enorme. Assim, além da formação ser mais demorada, em Santa Catarina são em média 8 meses para o soldado, há a necessidade de adquirir experiência de rua que é um fator essencial para o operador da área de segurança pública.

Como um piloto que, além de conhecer seu veículo na teoria (peças, engrenagens, estabilidade, além de outros aspectos), deve treinar sempre para manter-se no topo, o policial militar é esse especialista da área de segurança pública. Ele conhece a lei e a aplicação na realidade. Se depara com todas as mazelas que a legislação tenta punir. Diferente dos livros, observa na face das pessoas o sofrimento e a dor. Sabe que o criminoso tentará burlar a lei de todas as formas, mas que o dever dele é permanecer sob o manto da legalidade. Entende do cenário de segurança pública local e sabe identificar os principais problemas de outras áreas que impactam diretamente na segurança da comunidade.

Como no filme, os "especialistas" de terno e ar-condicionado deveriam entrar em uma viatura e passar 12 horas vestindo a farda e usando o equipamento. Percorrer os bairros e atender às ocorrências despachadas. Mediar conflitos, lidar com insatisfações humanas que podem se tornar crimes graves e abordar suspeitos.

Ao final desse período, ao ter vivido a experiência, ainda não terão condições de observar com a visão do policial militar os problemas enfrentados ou as soluções possíveis, porém terão um breve vislumbre de como é fazer segurança pública na prática e, como Ford II, dispostos a ouvir as opiniões dos que, todos os dias, operam a segurança pública de verdade e são especialistas no que fazem.

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