Opinião: Perdido e fraco, governo cede tarde

28 Maio 2018 00:23:00


Marcelo Camargo/Agência Brasi/

No final da noite do sétimo dia da Greve dos Caminhoneiros, o Governo Federal decidiu ceder e atender as reivindicações ainda não contempladas no acordo feito durante a semana com algumas entidades ligadas ao setor.

Mais que uma vitória da categoria, que escancarou esta semana nossa total dependência do transporte rodoviário, a abertura de pernas do Governo demonstra seu isolamento e sua incompetência.

É necessário voltar no tempo. A falta de habilidade política da então presidente Dilma Rousseff a fez perder o apoio político, o endurecimento da crise e os escândalos de corrupção no seu entorno, jogaram sua popularidade lá embaixo, ainda que pouco tempo depois de reeleita. Sem apoio nas ruas e no Congresso, a petista virou presa fácil. Para completar, seu vice-presidente era Michel Temer. Visto até então como especialista na Constituição, ele tinha bom trânsito entre senadores e deputados, e nunca foi da linha ideológica do PT. Era o homem certo no lugar certo. A brecha para colocar alguém para promover medidas pautadas pelas grandes corporações, entidades empresariais e comerciais, e capital estrangeiro. Muitas delas, sempre rejeitadas nas urnas.

Impeachment feito, Temer se aproximou dos opositores de Dilma e do mercado para dar início as mudanças que precisavam ocorrer antes das próximas Eleições. Começou pelo congelamento dos gastos públicos, passou pela Reforma Trabalhista e caminhava rumo a Reforma da Previdência, quando surgiu uma gravação no caminho. Era Joesley Batista, dono da JBS, em encontro no Palácio do Jaburu [residência oficial do vice - Temer continuar ali mesmo Presidente] fora da agenda, onde o emedebista incentivava a manutenção do pagamento de propinas pelo silêncio de Eduardo Cunha. Foi o fim da pouca força política que tinha.

O ilegítimo, que já amargava por parte da população o maior índice de rejeição da história, passou a ser rejeitado também pela classe política. Viu o governo esvaziar e para não cair, cedeu as chantagens de deputados e senadores, que trocavam cargos e benefícios por votos contra o prosseguimento de investigações contra ele. De chantagem em chantagem foi enfraquecendo ainda mais. Em um Governo perdido, que mascara números para se mostrar eficiente e tenta propagandear seu sucesso, mas não tem público para isso.

A paralisação dos caminhoneiros é mais uma mostra de incompetência. Primeiro, por ser pego desprevinido. E depois, porque pelas atitudes tomadas, subestimou sua força. Durante a semana cantou vitória e o fim da greve ao assinar acordo com apenas algumas entidades. Mas as ruas mostraram que o fim era mentira. Pelo contrário, só aumenta.

E apenas agora, depois de sete dias de paralisação, resolve ceder. Cede porque enfraquecido, não tem outra saída. Mas, cede tarde. Vai adiantar? Não se sabe.

Teoricamente as reivindicações foram atendidas, portante seria normal que os caminhoneiros encerrem o movimento. Porém, ao demorar para agir, o Governo permitiu que as manifestações tomassem proporções gigantescas. Não são só os caminhoneiros que estão nas ruas. São entidades empresariais, comerciais e milhares de brasileiros. Ainda que os caminhoneiros voltem ao trabalho, os demais manifestantes vão voltar? Foi criado o monstro que vai engolir o governo moribundo.

O que se espera agora é que mudanças mais profundas ocorram, atingindo principalmente os privilégios surreais do topo da pirâmide dos três poderes, mas sem sair das vias democráticas.


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