Perfil

Elias Silveira - 47 anos de jornalismo

Conheça um pouco da trajetória deste radialista que completa 47 anos de carreira em 2019

Elias Silveira tem raízes camboriuenses. Seu avô, José Silveira, nasceu na Limeira, interior de Camboriú. "Ele não gostava que o chamasse de vô, gostava que o chamasse de Zezinho", relembra. Sua avó paterna,dona Lúcia, natural de Tijucas, conheceu Zezinho nos Macacos, onde se casaram. Os avós maternos, Norberto e Maria Jacinto, fixaram residência em Lontras, cidade onde Elias nasceu, no ano de 1957. 

O começo da carreira 

A carreira do radialista começou muito cedo: quando menino, entregava jornais pelas ruas de Ibirama."Acordava de madrugada para entregar jornais: A Nação e também O Estado de São Paulo. Depois do trabalho, ia para a escola de datilografia do sindicato e lá ficava brincando com as máquinas. "Aprendi sozinho, sem professor", declara. Entregou jornais dos 11 aos 15 anos, quando deu seus primeiros passos na carreira que o consagrou: radialista. No ano de 1972, uma rádio abriu um concurso para rádio-escuta (um funcionário que ouvia notícias de outras emissoras e compilava textos para um locutor apresentar). Concorrendo com mais de quarenta candidatos, conquistou a vaga pelo contato diário com o jornal impresso: "Como eu era jornaleiro e lia os jornais, sabia o nome de cidades, capitais, ministros, presidente, todos os conflitos mundiais, sabia tudo. Então, quando me colocaram para o teste, eu era um datilógrafo razoável, sabia os nomes sem precisar pesquisar, então fiquei com a vaga, na Rádio Estadual de Ibirama".   

Elias também se formou em contabilidade, mas revela que os números não são seu forte, apesar de ter exercido a profissão. "Sou até um contador, mas não de números: de histórias". De lá pra cá, foram várias experiências em microfones diferentes: Rádio Clube de São João Batista, Rádio Clube de Gaspar, Rádio Camboriú (onde foi o primeiro contratado da emissora, em 1980). Na emissora de Balneário, Elias destaca a inovação: " Eu sempre achei que o ouvinte tinha que falar. Ele era a notícia, sabia o que acontecia na cidade, na comunidade. Então, em 1988 foi criado o Olho Vivo na Notícia, que é o antecessor de todos os outros no mesmo formato", relembra, citando como exemplo o Bote a Boca no Trombone, da Rádio Menina, programa que também esteve a frente. 

A censura 

Entre as várias fases da carreira profissional do radialista, uma das mais marcantes foi o período da ditadura militar. Quando fazia o noticiário policial, o texto que seria veiculado no rádio tinha que ser levado até uma delegacia, onde um sargento fazia uma análise prévia antes de liberar a veiculação. "Esse sargento lia notícia por notícia e fazia questão de datilografar tudo de novo. Mas ele era muito lento. Então um dia eu pedi para datilografar e o sargento pegou confiança em mim, pois sabia que eu não ia extrapolar aquilo que a gente sabia que era a regra. Naquele tempo, a censura era forte. Qualquer matéria jornalística tinha que ser datilografada em três vias e era preciso guardar o material por no mínimo três meses, tinha que mandar toda a programação da rádio por correio para Itajaí, onde ficava a delegacia Federal. Se atrasasse ou não chegasse a tempo, tinha que vir de Ibirama até Itajaí para carimbar a programação. Chegou um tempo que até as músicas que seriam tocadas no dia seguinte teriam que ser apresentadas com um dia de antecedência para análise e aprovação. Era uma censura mais forte, realmente." Elias conta que, quando os jornalistas queriam passar algum recado, usavam as transmissões de partidas de futebol para se comunicar através de códigos pré-combinados. "Como a transmissão acontecia ao vivo, não tinha como passar pelo censor, então a gente dava um jeito de passar nossas mensagens secretas", revela. 

Elias relembra outra passagem interessante daquela época, envolvendo outro ícone do rádio camboriuense: Fábio Margarida da Silva, mais conhecido como Fabinho, que apresentou durante anos o programa Onda Sertaneja na Rádio Camboriú. Certo vez, Fabinho se dirigia aos estúdios da rádio bem cedo, madrugada ainda, pedalando sua bicicleta. O apresentador morava no Rio Pequeno, e durante o trajeto, presenciou uma cena de vandalismo: alguém havia depredado algumas placas de sinalização. Chegando na emissora, durante o programa, Fabinho relatou o fato, dizendo "olha a sacanagem que fizeram na cidade", se referindo ao estrago nas placas. Na época, existia um órgão governamental chamado DENTEL - Departamento Nacional de Telecomunicações. E, naquela manhã, alguém do órgão estava fazendo rádio escuta. Resultado: Fabinho foi processado por ter dito a palavra "sacanagem" no ar. O diretor regional do DENTEL era da região nordeste e lá o termo sacanagem tem conotação erótica. "Sacanagem, na terra dele, tem conotação de...sacanagem mesmo, suruba", explica. Depois de uma consulta ao Aurélio para justificar o uso do termo, o processo foi retirado. "Pra você ver como a censura pegava no pé na turma que trabalhava em rádio, jornal...", relembra.

Outro fato que Elias relembra aconteceu em 1979, em Florianópolis: a Novembrada. Na época, o jornalista trabalhava no Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, que tinha uma sucursal em Florianópolis. E a sucursal tinha mandado material para oito páginas, devido a importância do fato (a visita presidencial) e da consequência (a confusão na Praça XV, onde houve manifestação contra o presidente Figueiredo). "Acontece que havia um censor dentro do jornal, um Konder. E o resultado: não saiu um quarto de página de tudo que aconteceu naquela tarde em Florianópolis. Isso me marcou tanto que eu desgostei e pouco tempo depois pedi demissão do Santa" 

Rádio Menina 

De lá pra cá, Elias percorreu boa parte do país: Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Acre, até voltar para Santa Catarina em 1988, para trabalhar na rádio Camboriú e também na campanha do então candidato a prefeito de Balneário Camboriú Leonel Pavan. Depois de um tempo, encontrou o empresário Narbal Souza, que se preparava para abrir uma nova emissora em BC: a Rádio Menina do Atlântico. E convidou o radialista a fazer parte da equipe. Na emissora, Elias apresentou o Jornal da Menina, que ia ao ar em três edições: de manhã, ao meio dia e no final da tarde. Em 1992, a rádio mudou de perfil, adotando uma programação voltada a música sertaneja. No jornalismo, o jornalista Carlos Eduardo Mendonça, o Bolinha, foi contratado e trouxe o programa Bote a Boca no Trombone, que até hoje continua no ar, na programação matinal. Elias também apresentou o programa, até se desligar da emissora, tornando-se concorrente no horário, dessa vez pela Rádio Divino Oleiro, de Camboriú. Dessa vez, com um programa com o seu nome: Programa Elias Silveira. "Eu já tinha criado o Sem Limite, da Rádio Cidade de Itapema, com o Nico Russi, aí tava pensando num nome novo quando alguém sugeriu que usasse meu próprio nome, pois havia criado o Sem Limite, Olho Vivo, ajudado a criar o Bote a Boca e os nomes ficaram nas emissoras. Assim, por onde for, levo meu nome junto. E decidimos batizar o informativo como Programa Elias Silveira". 

Elias marcou época em várias emissoras que passou. Prova disso é o reconhecimento dos ouvintes, que o cumprimentam fazendo sempre referência a uma emissora: Elias da Rádio Menina, Elias da Rádio Camboriú. "Outro dia eu estava na rua e um casal passou e perguntou: você não é o Elias da Rádio Camboriú? Como está o programa, faz tempo que não escuto mais?" Confessa, entre risos. "Isso comprova como o rádio marca a vida das pessoas, marca um público, um segmento, por onde a gente passou", complementa.  

São 47 anos dedicados ao jornalismo. Não somente nos microfones das rádios onde passou, mas também redações onde escreveu e nas câmeras que encarou nas emissoras de TV. Dos anos 60 para os dias atuais, a maneira de fazer jornalismo mudou muito. "Hoje a tecnologia nos ajuda muito. Eu peguei várias fases do rádio: acetato, cartucheiras, MD, até chegar aos dias atuais, com os computadores." Quanto a longevidade do rádio como veículo, ele acha mais fácil a TV acabar do que o rádio. "Lembro que quando comecei, em 1972, um radialista antigo me chamou e disse: é, tu tás entrando agora, talvez sejas o último a ser contratado, pois a TV vai acabar com o rádio". O tempo mostrou, 47 anos depois, que aquele radialista estava errado. 




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