AME CAMBORIÚ

O bairro é alegre e a praça é feita de criança

13 Abril 2018 12:30:00

Tatiane e Davi encontram na praça Huberto Sehnem o refúgio ideal para brincadeiras de mãe e filho onde fazer barulho é permitido

Gabriela Neves


Gabriela Neves/LP/Tatiane e o filho Davi brincam todos os sábados na Praça do CAIC, no Monte Alegre

A entrada no carro promete uma viagem. O caderno amarelo e a caneta em mãos, os olhos atentos ao redor - esses me garantem a aventura, o mergulho da descoberta, o desbravar. No começo, a insegurança, o clima instável, que ainda segurava suas nuvens com desleixo. Conforme íamos passando com o carro, pelo Cedro, Centro e pela Avenida Santa Catarina, pensei cá comigo: "É o caminho para sair de Camboriú." Mas não era, esse era o caminho do Distrito.  

Logo era o Monte Alegre, e sobre o "alegre" procurei rostos sorridentes, mas era dia de chuva e o sorriso era de quem estava em casa, no sofá confortável, com a Paixão de Cristo na televisão. Quanto ao monte, esse não é à toa, é um sobe e desce num linear quase infinito. A senhora da bicicleta rosa fazia um esforço danado para subir, descer e subir novamente. O cheiro de fumaça invadia o interior do veículo. Era Sábado de Aleluia, não deveria ser o peixe? Acho que por ali a carne assada é a lei do final de semana.

Tão distraída com os detalhes da viagem, nem percebi que não houve quem segurasse as gotas constantes de água que caíam. Foi bem próximo que deu para ver a Rua Lauro Francisco dos Santos e logo ali, a tal praça Huberto Sehnem. Estava quase inabitada, se não fosse pela dona Tatiane Alves da Silva, de 26 anos, a Cida, como gosta de ser chamada. A água tombava no chão de cimento sem parar, mas lá estava ela, ela não, eles. O passeio para a "praça do CAIC", nunca é solitário, afinal, para cada solitário, existe um cavaleiro.

Estava ali, ao lado, o pequeno Davi Luís, de dois anos e oito meses. Pele morena, cabelos a combinar com os olhos escuros, expressivos, atentos ao chocolate que se derretia entre os dedos pequeninos. O brinquedo preferido, o tal escorregador azul do parquinho, escorregava água ao invés de crianças. Só restou ficar observando, de dentro do carrinho azul de plástico que a mãe atenta segurava pelo cabo cinza.

Encolhidinhos, sentados em um dos equipamentos da academia ao ar livre, Cida abraça o filho, sentindo cada uma daquelas gotas de água recaindo sobre sua face. Enquanto eles vivem esse momento, eu me aproximo, me apresento. Ela toda sorridente, os cabelos presos, cheia de sacolas e de bolsas nas mãos. Mãe que é mãe sempre anda carregando infinitos cacarecos.

- Eu venho lá de Camboriú, todo final de semana. Sempre venho aqui com ele.

Foi aí que percebi, distrito e bairro não são a mesma coisa. Deve ser igual lageano quando inventa seguir os costumes de gaúcho, acha que é a mesma coisa, mas no coração de quem vem da terra, a resposta é o pertencimento. Cida é moradora do Santa Regina, mora com a mãe e mais três irmãos.

 - Olha, lá acontece muita briga, sabe?! Venho pra cá para não discutir, só quero fugir da confusão com ele. Eles são muito chatos, ficam reclamando que não pode ter barulho, aí eu venho fazer o barulho aqui.

A brincadeira na praça rende por muito tempo para o pequeno Davi. Começa e termina sempre no mesmo horário, todo final de semana. Às 9h eles se achegam no esconderijo do barulho de mãe e filho e ali ficam até às 14h. Dali, partem para a casa do padrinho do menino, onde almoçam e aproveitam o restante do dia, fazendo a barulheira boa da criança feliz.

Dono da praça, dono da história

E de brincadeira, a inspiração para o nome da praça conhecia bem. Huberto era frequentador assíduo dos campeonatos de bocha do time Sercama e costumava jogar onde hoje está instalada a Escola Básica Municipal Anita Bernardes Ganancini. Praticava o esporte no mesmo bairro onde está eternizado e homenageado através da nomeação da praça.

Huberto nasceu em 26 de julho de 1921, no município de Doutor Pedrinho, aqui mesmo no Estado. Filho de Boaventura e Justina Sehnem, se casou aos 22 anos com dona Lícia e vieram morar em Camboriú, juntamente com dois filhos do casal, em 1986. A vinda para o município se deu pela procura de trabalho e necessidades financeiras do casal.

Logo que chegaram na cidade já se instalaram no Monte Alegre, ali tiveram mais dois filhos. Jeane, Gilberto, Diego e Elisangela cresceram no município onde o pai considerava sua terra natal de coração. Huberto se envolveu fortemente com a política local, se tornando uma personalidade conhecida e querida pelos moradores do bairro.

No dia 09 de janeiro de 1999, Huberto e a esposa iam em direção ao bairro Canhanduba, na época estavam realizando a obra de duplicação da BR-101. Devido a isso, havia mudanças constantes na direção do tráfego e o veículo de Huberto acabou indo no sentido oposto a mão da pista e colidiu com um caminhão. Lídia ficou presa entre as ferragens por mais de duas horas, mas Huberto não resistiu e faleceu.

Inauguração da praça

Deixou saudade no bairro alegre e marca em um dos montes. No dia 30 de junho de 2009, foi inaugurada a praça Huberto Sehnem. O terreno pertencia a prefeitura de Camboriú e segundo o vereador autor do projeto, Antônio Paulo da Silva Neto (PR) - o Piteco, o local estava abandonado e sem uso. A localização propícia, em frente a escola, trouxe a ideia de construir uma praça para beneficiar o bairro com um ambiente de interação.

Posteriormente, em 2011, no governo Luzia, a praça foi revitalizada e reinaugurada após a instalação da academia ao ar livre.


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