Artigo

Os 'Farroupilhas' de Camboriú

por José Angelo Rebelo

Como camboriuense nato, eu nada tenho com a tal Revolução Farroupilha, apesar de nossa Câmara de vereadores ter aprovado a lei ordinária 022/17 de 22/08/2017, e que foi sancionada pelo nosso atual prefeito, que instituiu a Semana Farroupilha no âmbito do município de Camboriú, assim: "Fica instituída, no âmbito do Município de Camboriú, a Semana Farroupilha, que ocorrerá anualmente, na semana que compreende o dia 20 de setembro, visando promover eventos artísticos e culturais e valorizar os hábitos alusivos à tradição gaúcha". Eu, um estudioso de nossa história, nunca soube dessa tradição por aqui. O que sei aprendi com o historiador Décio Freitas, em seu "Ódios Gaúchos" (Zero Hora, Porto Alegre, 11/07/1999), que na "Revolução" Farroupilha os gaúchos mataram-se durante 10 anos em guerra civil que dividiu a população e tinha tanto a ver com questões regionais quanto com o poder central, conforme aparece às claras quando se desconstrói a mitologia do episódio. Ainda no rescaldo daquela briga, rebentou a Guerra Civil de 1893, a mais sangrenta da América do Sul no século XIX. Cerca de três décadas depois voltaram os gaúchos a matar-se. Quase foram às armas em 1930, 32, 37 e 1961. Mesmo quando não se matam, o ódio civil leva-os a viverem como cão e gato. Eu mesmo já ouvi de gaúchos em férias em Balneário Camboriú, ao perceberem a quantidade deles no entorno, exclamaram: Mas Bah, tchê, aqui só tem gaúcho! Para mim, obrigar-nos a participar deste engodo farroupilha, pois jamais foi uma revolução, já que nada conseguiu mudar, pois foram derrotados, revela ignorância total e falta de cultura de quem o faz. Com base em Gilberto Ferreira da Silva, e outros, em seu livro "RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento". Governo do Rio Grande do Sul. 2008 e em Juremir Machado Silva, em seu livro "História Regional da Infâmia" (Editora LPM. Porto Alegre. 2010), é que aconselho a todo cavaleiro que estiver comemorando esta Semana Catarina dos Farrapos em Camboriú a descer de seu solípede e, de joelhos, pedir perdão aos negros escravos farroupilhas assassinados no dia 14 de novembro de 1844, na batalha de Porongos, por ato infame de traição feita por Davi Canabarro, que substituiu a Bento Gonçalves no comando da tal revolução, e pelo então Barão de Caxias àqueles negros propositadamente desarmados, para serem mortos, aos quais fora prometido liberdade se lutassem contra ao Império. Para as duas partes era importante resolver a questão dos negros em armas, no final da luta. Com dissemos, os revoltosos haviam prometido liberdade aos negros que lutassem no exército farroupilha e com isso a Corte Imperial não concordava. Era um perigo para os escravocratas brasileiros um grande número de negros armados, conforme Leitman Spencer em seu livro "Negros Farrapos: hipocrisia racial no sul do Brasil no séc. XIX e Dacanal José, em seu "A Revolução Farroupilha: história e interpretação. Porto Alegre: Mercado Aberto.1985. p. 72.

Foi o mais vil acordo da época. Mas esta engulição pela história alheia não é novidade em Camboriú. Na década de 1980 já desfilavam por nossas ruas "maragatos" e "picapaus" e no longínquo 2 de setembro de 1935, no ano do centenário do início daquela briga, dita ser contra a taxação sobre o charque imposta pelo Império aos estancieiros rio-grandenses, e que foram totalmente derrotados, o Prefeito Flávio Vieira estava "enrolado" por esta história. Por isso, escreveu ao Secretário Estadual da Fazenda, Viação e Obras Públicas, em Florianópolis, dizendo-lhe que não sabia o que fazer com vários caixões repletos de mostruários destinados à Exposição do Centenário Farroupilha. Queria saber para quem deveria enviar, quando e por qual meio e quem pagaria as despesas relativas a tudo aquilo. Esse fantasma gaudério já nos rodeia há anos. Por outro lado, enquanto lutamos junto aos vereadores, ou a quem cabe instituir em nossas escolas disciplinas que tratem da nossa história, para que não sejamos engolidos pela história alheia, nada até agora conseguimos a respeito, ao passo que facilmente se instituiu esta apócrifa semana farroupilha camboriuense no município.

É com tristeza que faço minha a afirmação de Rui Barbosa: "A chave misteriosa das desgraças que nos afligem é esta e somente esta: a Ignorância! Ela é a mãe da servilidade e da miséria".

José Angelo Rebelo é professor, escritor e historiador.



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