POLÍTICA

​Mulheres ainda enfrentam desafios para ingressar na política
Com uma baixa porcentagem de mulheres em cargos políticos, mas maioria no eleitorado, partidos buscam cumprir a cota de 30% de candidaturas femininas





As mulheres são maioria no eleitorado, mas em relação a cargos políticos, elas ainda ocupam a minoria, com cerca de apenas 12% dos eletivos ocupados. Atualmente, o Brasil ocupa a posição 140 em uma lista de 191 países em representatividade feminina na política e legislação brasileira prevê uma cota para que haja a inserção das mulheres no processo eleitoral, mas mesmo assim, poucas chegam a, de fato, serem eleitas. 15% dos cargos de deputados federais e dos senadores são ocupados por mulheres, já no poder executivo, o país tem apenas uma governadora e duas ministras de estado. Em Camboriú não é muito diferente, há apenas quatro mulheres que ocupam o cargo de vereadoras. 

Prestes a entrarem em período eleitoral, os partidos têm preparado as pré-candidaturas femininas. O PDT, Podemos, PSDB, PSD e MDB informaram que possuem cerca de oito pré-candidatas mulheres para vereadora. Segundo Marcia Regina Freitag, vereadora e Presidente do PSDB, para atingir os 30% da cota de vagas dedicada às candidaturas femininas, cada partido deve ter, no mínimo, sete candidatas mulheres para o próximo pleito eleitoral. “Isto é suficiente? Não, deveríamos ter igualdade de condições, uma vez que em número de eleitores, somos maiores que os homens”, diz. 

Para preencher essa cota, alguns partidos enfrentam algumas dificuldades, como é o caso do PDT, que adota a metodologia de que todos são iguais e tem os mesmo direitos e deveres dentro do partido, mas mesmo com a participação ativa das filiadas nas ações, ainda é um número muito reduzido de mulheres que aceitam o desafio. Enquanto que em outros partidos, como o Podemos, para engajar as mulheres a participar e se candidatarem, foi realizada uma preparação especial com treinamentos com o apoio da Executiva Estadual e Nacional, que trouxe cursos online e reuniões por vídeo conferencia, que buscou valorizar a participação da mulher no meio político. “Não enfrentamos esse problema de encontrar mulheres para se pré candidatar”, conta o presidente do Podemos, Ramon Jacob. 

A alegação de que há uma dificuldade de encontrar mulheres para se engajarem na política é muito comum, principalmente porque elas continuam a manter jornadas duplas e triplas, tendo que se dedicar a outras tarefas também como a casa e o trabalho, além da política. Marcia diz que ainda há muito preconceito e que a mulher sempre tem que trabalhar mais, estar mais a disposição, impor as ideias e sentimentos com convicção, além de conciliar a vida pública com ser mãe, mulher e dona de casa. “Talvez esse seja o maior enfrentamento que as mulheres têm pela frente”, diz. 

Em concordância, a pré-candidata Vera Maria Roberto diz que no meio político, é necessário que a mulher tenha auto confiança, que saiba que é capaz de ocupar qualquer lugar na sociedade, buscando conhecimento sobres os temas que atua ou deseja atuar. Além disso, ela explica que o maior desafio é a questão de gênero, pois existe uma tensão entre desafios culturais e regras legais. “Só o fato de ser mulher, pressupõe que ela é capaz de tudo, exceto atuar como parlamentar seja na esfera municipal, estadual ou federal”, acrescenta.

Para Flávia Fernandes, professora do Instituto Federal Catarinense e pré-candidata à vereadora pelo Partido dos Trabalhadores (PT),  as poucas mulheres que participam da política têm que lidar com preconceitos da classe, que as rotula como incapazes e submissas. Por isso, é necessário a superação dessa cultura machista e preconceituosa.  Vera conta que aquelas que superam essas dificuldades também encontram o desafio que encontrar um partido que as valorizem, não só como uma estratégia para cumprir a lei de cotas, mas sim que valorizem a mulher conhecendo e reconhecendo sua capacidade intelectual, que promovam cursos de formação política voltados à mulher, ofereçam suporte financeiro, uma campanha justa, e também desconstruam o comportamento machista institucional.

Além disso, Vera ainda diz que há uma resistência nos partidos em inserir mulheres como candidatas, e que isso é reflexo da movimentação da própria sociedade, que em passos lentos amplia a participação das mulheres na política.

A mulher em espaço de poder é muito benéfica, principalmente quando há leis elaboradas nos parlamentos, pois ela tem empatia com o sujeito que receberá o benefício da lei.  “O colocar-se no lugar do outro, é uma repetida prática da mulher desde os primeiros anos de vida. A mulher é capaz de promover quaisquer tipos de mudanças, basta que ela entenda sua representatividade e importância na sociedade”, ressalta Vera.

A atual vereadora Jane Stefenn, do PSL, explica que falta a sensibilização da comunidade de que a mulher é quem melhor entende as necessidades da mulher, de uma família, entre outras áreas de discussão. 

Ela comenta que apesar da luta constante das mulheres, que dominam os espaços da família e muitos postos de trabalho, a cultura do brasileiro ainda tem muito preconceito sobre a participação das mulheres na política. Para Jane, ainda vivemos numa sociedade que as mulheres ainda são subjugadas por conta do gênero e, em virtude disso, ainda vemos os homens como maioria tanto no Poder Executivo como no Legislativo. “Muitos, inclusive, acabam criando leis em benefícios deles e detrimento das necessidades das mulheres”, ressalta.

Para Pamêla Olegário, pré-candidata pelo Republicanos, a mulher tem se engajado cada vez mais nas causas sociais que envolvem não somente suas casas, mas também os anseios da sua comunidade local, regional, entre outras. Ela ainda explica que para uma política justa e igualitária é necessário unir as boas intenções de ambos os sexos. “Política se faz com união, já diz o belo ditado ‘A andorinha sozinha não faz verão’, assim também é no setor público, o engajamento de agentes que promovem a política como também o receptor, popularmente nominado “povo”, acredito que havendo esta aliança, pouca coisa dará errado”, diz. 

Em uma análise da mulher na política de Camboriú, Vera conta que observa a sociedade camboriuense tem muitas mulheres líderes nos bairros, muitas chefes de família, principalmente quando olha para as políticas de educação, de saúde e de assistência social, onde a presença da mulher é maciça, é forte, é consistente, até mesmo nos espaços esportivos e artísticos. Mas nos espaços políticos, essa proporção é bem menor.  “Acredito que falta, por parte das mulheres, reproduzirem tais comportamentos dos demais espaços no espaço político, e convencer-se que o lugar da mulher é aonde ela quer estar”, diz.  

Nesse contexto, Flávia acredita que falte uma provocação sobre o assunto nas escolas e nas famílias, e também mostrar para a sociedade que política se discute e que as mulheres fazem parte deste contexto. Para ela, este tabu permite que muitas mulheres não se envolvam na política. Já no município, além das diversas demandas que as mulheres exercem no lar e profissionalmente, a professora acredita que não foram educadas para estarem incluídas em um ambiente visto como pecaminoso, hostil e corrupto. “Os próximos passos no meu entendimento, seriam mudanças no contexto da formação escolar das meninas, possibilitar cursos contra turnos sobre o tema nas escolas, incentivos à leitura entre outras”, explica.

Muitas mulheres encontram dificuldades para ingressar na política, sendo a principal delas, a falta de apoio de companheiros, amigos e família. Marcia Regina diz que as dificuldades em se candidatar aumentam quando não há apoio, principalmente, dos parceiros. “As falas são sempre as mesmas: ‘tenho muita vontade, nas será que vou dar conta de tudo? Casa, filhos, marido, etc...’ Essa já não é a mesma condição para os homens. Apesar disso tudo houve um crescimento nas últimas eleições, reflexo do caso Marielle, que inspirou mulheres a ir em frente. Historicamente todas as mulheres que de alguma forma chegaram ao poder escreveram suas histórias em cima de lutas e sofrimento! Esperamos que futuramente seja diferente!”, acrescenta.




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